Impressionada com a onda...
Acho incrível como damos poder às pessoas pra nos causar dano.
Eu poderia começar esse texto de forma doce e inusitada, mas a vida não é assim pra mulher preta.
Desde cedo aprendemos a nos defender da nossa essência, do nosso calor, do que temos a oferecer.
- Senta com as pernas fechada! - Dizia minha avó
- Menina não pode mostrar a língua! - Dizia minha tia
- Não responde assim que você é uma mocinha - Dizia a vizinha
E com isso a gente vai se contendo, se fechando, deixa de brilhar um dia de cada vez.
Aprende a não ser a gente mesmo, aprende a ser a outra pessoa que veio ao mundo para agradar à todos menos a si mesma.
Aprende a ouvir, mas não a expressar a opinião.
Aprende a aguentar, porque meninas "don't cry"
Senta de pernas fechada, não chupa pirulito na rua, não mostra a língua, sorri mas não alto, não pode ser debochada, nem respondona, aprende a esperar, a engolir o choro.
E dependendo da cultura familiar...nossaaaaa! Não usa shorts, não usa calça, não usa maquiagem, não vê tv, se a mãe é solteira vai piorando, porque colocam um peso maior de nunca dar certo na vida, vai virar uma vagabunda...e a pretinha vai crescendo, aprende que não pode rebolar porque isso é coisa de puta.
Acontece a toxicidade, somos tocadas por ela ainda meninas! Pela mãe da coleguinha de escola, do porteiro, da patroa da nossa mãe, dos filhos das outras empregadas, da amiguinha preta que não quer ser vista com você...
E já na vida adulta tudo só maximiza dentro de relacionamentos abusivos e eu não falo apenas do homem, falo da amiga branca, falo do deboche, dos sorrisinhos escondidos e a adulta simplesmente vai fazendo o que aprendeu desde pequena, não responde e aceita, abaixa o olhar, se sente diminuída e vai transferindo isso pra vida.
A terapia ajuda, ajuda muito.
Mas quando vem a onda ninguém está realmente preparado para resistir.
A alguns dias fui tocada pela onda, a primeira veio de uma forma tão sutil...sabe aquelas que batem nas pernas mas não te derruba? Mas você sente...
Um "amigo" me confrontou sobre o diabetes, sobre os cuidados que tenho tido e sobre ser "frescura" não sair, não me picar na frente das pessoas, sobre aceitar muito fácil essa doença (como se a gente pudesse simplesmente ignorar)....doeu.
Saber que alguém em pleno sec. 21 acha diabetes MIMIMI.
Saber que essa pessoa é um amigo e que, nem de longe entende como foi difícil pra mim, aceitar que é uma doença sem cura.
Eu chorei. Tive perto de uma crise de ansiedade de frente pro mar com o vento batendo na cara eu senti ela vindo, senti o tremor, o medo e as lágrimas vindo. Porque eu precisei me defender pra uma pessoa que eu pensei que não precisava.
A segunda onda, bom essa foi um pouco mais forte, porém veio de alguém que eu esperava (o ex).
E foi tão fútil, por conta de uma foto e o que mais me chocou depois de 2 anos foi a pessoa dizer.
- Estou me preparando para te ver com outra pessoa.
Por um instante, eu fiquei pensando quantas vezes eu me privei de postar fotos em consideração pelos sentimentos dele, quantas vezes eu disse sim porque na minha cabeça achava que um não iria magoá-lo, lembrei de todas as vezes em que fui manipulada e lembrei da primeira vez em que soube dele com outra pessoa e detalhe ainda estávamos juntos...
Eu só consegui responder, engraçado você se preparar, porque eu não tive tempo pra isso. Saiu tão fácil, que me aliviou...eu tinha me prometido não ficar lançando nada na cara dele por nada, mas quando dei por mim...tava ali!
Acho que estava entalado! Lembrei da terapia depois...fiquei remoendo a conversa e me questionando pq demorei tanto? Porque me deixei ser tão manipulada? Pensei, se fosse antes o que eu teria dito?
Eu não teria dito nada, eu teria sorrido e teria confortado ele pra ele se sentir massageado no ego.
Eu pensei: - Então é assim? Se colocar em primeiro? É assim que a gente se sente, quando não sente mais?
E essa onda também se foi. Mas essa não doeu. Eu senti orgulho de mim!
Eu tentei conversar sobre essas coisas com as pessoas mas eu ainda não consigo falar, a ansiedade me faz pensar que meus problemas são particulares e que as pessoas tem coisas mais importantes pra fazer...rsrs...
Mas eu ouço elas! Faço por elas o que gostaria que fizessem por mim.
De uma ansiosa!

Comentários